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Um ano para se virar

Publicado no Jornal de Brasília de 04.01.2006

A fisionomia fechada, os olhos empapuçados, os cabelos grisalhos e as risadas nervosas foram as marcas mais significativas da entrevista que o presidente Lula concedeu ao "Fantástico", na primeira noite do ano que ficará conhecido como o último ano do governo que parece não acabar nunca.

Com todas as denúncias de corrupção que minaram a frágil estrutura governamental, o presidente iniciou o ano com o pé esquerdo ao se submeter, mais uma vez, a uma entrevista que só lhe prejudica; pois, enquanto Lula deixar para depois a inevitável confissão de que sabia de tudo e decidir não
esconder mais nada, o poder central ficará na corda bamba.

Na entrevista, o presidente repetiu a catilinária que escolheu para se defender das acusações e a disfarça falando em parábolas, escondendo o nome dos seus algozes e atingindo todos os que estão ou estiveram ao seu lado.

A tática do presidente parece ser a mesma que usou durante 20 anos até ganhar as eleições presidenciais. Naqueles tempos, o candidato disparava suas diatribes contra todos os políticos, denunciando-os pela corrupção, incompetência e falta de coragem para mudar a vida dos brasileiros.

No poder, o presidente pede a Deus quase tudo, inclusive, que seus detratores venham a pedir desculpas pelas acusações que assacam contra ele. Até hoje não existe nenhum motivo para que alguém deva se desculpar com Lula, mesmo porque, publicamente, ninguém ofendeu à honra do presidente; ao contrário, o que se vê é a oposição batendo e soprando para que não sejam investigadas, em profundidade, as ligações do poder central com os dutos de corrupção que desembocam nas lagoas que circundam o palácio presidencial.

A blindagem do presidente é resistente e só ameaçada, de vez em quando, por companheiros de partido ou ministros ambiciosos que desejam a cadeira presidencial. Até hoje, os únicos que pediram desculpas foram os novos dirigentes do Partido dos Trabalhadores que constataram as irregularidades no partido e expulsaram os infiéis do templo.

Na constrangida entrevista, o presidente tentou minorar os danos da péssima administração que conduz para enumerar seus feitos nos três anos de governo; entretanto, para sua tristeza, o interlocutor, com sua larga experiência de muitos "Big Brother", conseguiu driblar as manhas do entrevistado, perguntando e esperando as respostas que poderiam elucidar as entranhas do poder. A estratégia permitiu ao telespectador constatar que o presidente não tem respostas satisfatórias para nada do seu governo: umas porque alega não saber de nada que se passa sob o seu comando, outras por considerar que não são da sua responsabilidade atos praticados em outras instâncias administrativas.

É uma pena que Lula não tenha feito o que fez Roosevelt na sua administração. O estadista americano, ao sair do governo, em 1943, havia gerado 9 milhões de empregos, construído 120 mil edifícios públicos, 1 milhão de quilômetros de estradas, 80 mil pontes, 8.000 parques e 800 aeroportos. Não é pouco para um presidente que nada prometeu e que, também, sofreu oposição cerrada ao seu governo.

O exemplo de Roosevelt talvez seja exagerado para Lula se espelhar, mas o presidente pode, perfeitamente, assistir à história de Juscelino Kubitscheck que estará na televisão nesses dias e retirar da vida do nosso presidente desenvolvimentista as metas para um novo governo, pois, de sua fala, o que restou foi a certeza de que Lula é clone do antigo operário e deseja mais uma chance de governar, de verdade, este país tão sofrido que não agüenta mais tanta corrupção e conversa de botequim. Em vez de virar o ano, Lula vai ter um ano pra se virar.

Paulo Castelo Branco é advogado



Inclusão: 12/1/2006